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Essa semana a Nike apareceu no noticiário por dois motivos bem diferentes. De um lado, apresentou três supertênis de uma vez só, com tecnologia que chama a atenção de qualquer corredor.

Do outro, carrega um problema que vem crescendo há alguns anos e ficou escancarado em setembro: a empresa saiu do S&P 100, o índice que reúne as maiores companhias da bolsa americana.

Hoje vamos entender cada lançamento, o que aconteceu com a Nike nos últimos anos e por que a corrida virou a grande aposta da marca para dar a volta por cima.

Conteúdo da 70ª edição:

  1. O novo sistema de supertênis da Nike;

  2. Nike Apex: o topo da linha;

  3. Nike Alphafly 4: o queridinho da maratona está de volta;

  4. Nike Swooshfly: a porta de entrada;

  5. O que acontece com o Vaporfly;

  6. O grande problema: a saída do S&P 100;

  7. Como a Nike chegou até aqui;

  8. A corrida cresce enquanto a empresa encolhe;

  9. Para onde tudo isso vai.

O novo sistema de supertênis da Nike

Os três tênis do sistema de prova da Nike: Apex, Alphafly 4 e Swooshfly

Apex, Alphafly 4 e Swooshfly. Imagem: Nike

No dia 30 de setembro, a Nike apresentou o que chamou de "sistema de velocidade para o dia de prova". São três tênis: Apex, Alphafly 4 e Swooshfly.

A novidade está na forma de organizar a linha. Segundo a Nike, esses modelos não formam uma escada do mais simples para o mais caro. A proposta é que cada corredor escolha o tênis de acordo com o objetivo, a distância da prova e a experiência que tem no esporte.

Na divisão da própria marca, o Apex é para quem briga por cada segundo, o Alphafly 4 é para quem quer sentir a velocidade da maratona e o Swooshfly é o convite para quem vai encarar a primeira linha de largada.

Um exemplo ajuda a entender. Em vez de uma loja de bicicletas dizer "essa é a básica e essa é a top de linha", o vendedor pergunta qual prova você vai fazer e em que momento do esporte você está. É essa conversa que a Nike quer ter com o corredor.

Se você perdeu, na edição passada falamos dos supertênis lançados na semana da Maratona de Berlim, incluindo o Alphafly 4: Coros Pace 4 Pro vs Forerunner 970 e os supertênis da Maratona de Berlim.

Nike Apex: o supertênis mais avançado da Nike

Nike Apex com unidades Air Zoom empilhadas na parte da frente do pé

Nike Apex. Imagem: Nike

O Apex é o modelo mais ousado do trio. A Nike descreve o tênis como a expressão máxima da sua tecnologia de prova, feito para maratonistas que buscam cada segundo possível.

O grande destaque está na parte da frente do pé. São quatro unidades Air Zoom organizadas em dois pares empilhados. De acordo com a Nike, é o primeiro tênis de corrida com essa configuração e a maior quantidade de Air que a marca já colocou no antepé de um tênis de corrida.

Os principais números divulgados pela Nike:

  • até 40% mais retorno de energia que o Alphafly 3, medido no tamanho masculino 10 americano;

  • mais de 10% mais leve que o Alphafly 3;

  • drop zero, com 40 mm de altura tanto no calcanhar quanto no antepé;

  • espuma ZoomX LT, placa de carbono Flyplate redesenhada e cabedal Flyknit X.

O drop zero merece atenção. Na prática, o calcanhar e a frente do pé ficam na mesma altura, algo pouco comum em tênis de prova.

Jacob Kiplimo contou que usou protótipos ao quebrar o recorde mundial da meia maratona em Lisboa e ao correr a melhor maratona da carreira, em Londres.

O Apex chega em janeiro de 2027. O preço estimado está de $350, nos Estados Unidos. Não saiu nenhuma informação para o Brasil ainda.

Nike Alphafly 4: o queridinho da maratona está de volta

Nike Alphafly 4, a quarta geração do supertênis de maratona da Nike

Nike Alphafly 4. Imagem: Nike

O Alphafly nasceu no projeto Breaking2, a tentativa da Nike de levar Eliud Kipchoge a correr uma maratona em menos de duas horas. A quarta geração trouxe mudanças em todos os componentes principais. Os números oficiais da Nike são estes:

  • 10% mais retorno de energia que o Alphafly 3;

  • 5% mais leve, medido no tamanho masculino 8,5 americano;

  • nova espuma ZoomX LT na entressola;

  • unidades Air Zoom atualizadas pela primeira vez na história do modelo, mais macias e silenciosas;

  • cabedal Atomknit novo, placa de carbono Flyplate e solado Fast Shot.

A marca explica que o objetivo não era deixar um tênis rápido ainda mais rápido. O foco foi ajudar o corredor a manter a velocidade e a eficiência quando o cansaço começa a mudar a forma de correr, lá nos quilômetros finais.

Nos Estados Unidos, o Alphafly 4 custa US$ 280. O lançamento antecipado aconteceu em 17 de setembro, em quantidade limitada e só no site da Nike. O estoque esgotou em minutos na Europa e na América do Norte. A venda mais ampla começa em 29 de outubro. No Brasil, a Nike ainda não divulgou preço nem data oficial.

Nike Swooshfly: a porta de entrada para os supertênis

Nike Swooshfly com cabedal translúcido e entressola laranja

Nike Swooshfly. Imagem: Nike

O Swooshfly é a grande novidade do trio, porque é um tênis totalmente novo. Segundo a Nike, ele não é uma versão simplificada de nenhum modelo existente. É um supertênis criado para quem vai escolher um tênis de prova pela primeira vez ou está atrás de um novo objetivo, dos 5 km até a maratona.

A ideia surgiu com corredores na China, que queriam a energia de um tênis de prova sem abrir mão do conforto.

O que ele traz:

  • nova espuma supercrítica Nike SkyX;

  • placa de carbono Flyplate pensada para ser mais adaptável;

  • cabedal Vaporweave, um tecido translúcido;

  • forma com mais espaço para o pé e contraforte estruturado no calcanhar;

  • solado com borracha GOATEK na parte da frente.

Agora vem o número que mais chamou atenção. Segundo a Nike, o Swooshfly entrega até 16% mais retorno de energia que o Vaporfly 4, medido no tamanho masculino 10 americano. Ou seja, o tênis de entrada da linha supera, nesse quesito, um dos supertênis mais famosos da própria marca.

Ele chega primeiro à China, em fevereiro de 2027. Depois vem o resto do mundo, na primavera do hemisfério norte. A Nike afirma que ele terá um preço mais acessível que o restante da sua linha de prova, mas ainda não divulgou o valor.

O que acontece com o Vaporfly

O Vaporfly ajudou a começar a era dos supertênis com placa de carbono. Mesmo assim, ficou de fora do novo sistema.

A Nike não anunciou o fim do modelo. A marca diz que o sistema de prova complementa a sua linha de tênis de rua, sem substituir nada. A Gear Patrol, porém, notou que o Vaporfly nem foi citado na apresentação para a imprensa e levanta a hipótese de que a Nike esteja reposicionando o modelo para provas mais curtas, como 10 km e meia maratona. Por enquanto, isso é só especulação.

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O grande problema: a saída do S&P 100

O S&P 100 é um índice que reúne 100 das maiores empresas da bolsa americana. Exemplo: funciona como uma seleção das gigantes do mercado. Estar ali é sinal de tamanho e solidez.

A Nike fazia parte desse grupo desde dezembro de 2008. No dia 21 de setembro de 2026, depois de 18 anos, ela saiu do índice por causa da queda no seu valor de mercado em comparação com as outras grandes companhias. A Nike continua no S&P 500, que é mais amplo, mas a saída tem um peso enorme. Segundo a Forbes, as ações da Nike caíram 78% desde o pico de 2021.

No dia 1º de outubro, a empresa divulgou o resultado do primeiro trimestre do seu ano fiscal de 2027, que cobre de junho a agosto de 2026:

  • a receita foi de US$ 11,2 bilhões, queda de 4% em relação ao mesmo período do ano anterior;

  • as vendas diretas da Nike, feitas pelo site, pelo app e pelas lojas próprias, caíram 8%;

  • só no digital, a queda foi de 13%;

  • na China, a receita caiu 22%.

A projeção para o ano inteiro também não anima. A Nike espera queda de receita na casa de "um dígito alto" e anunciou uma reestruturação que vai resultar em menos vagas de trabalho.

Como a Nike chegou até aqui

Para entender a crise, precisamos voltar a 2020. Naquele ano, John Donahoe, ex-CEO do eBay, assumiu o comando da Nike com uma aposta clara no digital.

A estratégia ficou conhecida como "Consumer Direct Acceleration", algo como acelerar a venda direta ao consumidor. No papel, a lógica parecia boa: vendendo pelo próprio site, pelo app e pelas lojas da marca, a Nike ficaria com uma margem maior em cada par e ainda teria acesso aos dados de quem compra.

Para isso, a partir de 2020, ano da pandemia, a Nike cortou ou reduziu bastante a relação com revendedores. Redes americanas como Foot Locker, Macy's e DSW foram afetadas, além de muitas lojas pequenas. Na prática, o consumidor passou a ser empurrado para o app e para os canais da própria marca.

O efeito colateral apareceu nas prateleiras. Com menos Nike nas lojas, sobrou espaço para outras marcas. Analistas apontam que On e Hoka aproveitaram esse vazio para ganhar mercado, justamente na corrida.

O próprio Donahoe reconheceu o erro. Em entrevista à CNBC em abril de 2024, ele admitiu que a Nike tinha se afastado dos revendedores mais do que pretendia. Hoje, quem comanda a empresa é Elliott Hill, um veterano da casa, que vem reconstruindo essas parcerias e colocando o esporte de novo no centro da marca.

A corrida cresce enquanto a empresa encolhe

Aqui está o detalhe que conecta tudo. No mesmo balanço que mostrou queda na receita, a Nike informou que a área de corrida cresceu dois dígitos no trimestre.

Quem está puxando a empresa para baixo são a linha casual Sportswear, a Jordan Brand e a China.

Não é coincidência que a Nike tenha escolhido esse momento para lançar três supertênis de uma vez. A corrida é hoje a parte do negócio que mostra que a estratégia de voltar ao esporte está dando resultado.

Para onde tudo isso vai

A Nike tem pela frente um desafio duplo: reconquistar o investidor e reconquistar o corredor. O primeiro sinal positivo veio do segundo grupo, já que o Alphafly 4 esgotou em minutos mesmo custando US$ 280.

Os próximos meses vão mostrar se esse sucesso se repete na venda ampla do Alphafly 4, na chegada do Apex em janeiro e, principalmente, no Swooshfly, que tem potencial para levar o supertênis a um público muito maior. Assim que a Nike divulgar preços e datas para o Brasil, volto ao assunto.

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Eduardo Dantas e Tatiana Oliveira

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